Por Abraão de Sousa – Alerta Buritis | DRT-2022/RO – É permitida a reprodução parcial ou total da matéria, desde que citada a fonte. Lei nº 9.610/98
A pacatez característica da zona rural do Garimpo Bom Futuro, em Ariquemes, foi estilhaçada exatamente às 21h da noite do último dia 24 de fevereiro, por um estrondo que a lógica humana custa a processar. Não se tratou de um acerto de contas de rua ou de uma invasão por desconhecidos. O horror, desta vez, usava chinelos, circulava pela cozinha, tem 17 anos e atendia carinhosamente pelo nome de “neta”.
O cenário descrito pelos peritos e investigadores é de uma frieza que desafia a maturidade de qualquer cronista policial. José Lucas dos Santos Filho, um homem que carregava o peso dos anos e a história de uma vida dedicada àquela terra, foi executado com três tiros. Pelas costas. Um detalhe que retira qualquer possibilidade de “confronto” e escancara a covardia do ataque. Ao seu lado, a esposa, companheira de uma existência inteira, sentiu o metal atravessar o peito e a boca. O fato de ela estar viva hoje não se deve apenas à medicina, mas a um instinto de sobrevivência quase lúgubre: ela precisou prender a respiração e simular o fim da própria vida enquanto a agressora que as investigações apontam ser sua própria neta, deixava o recinto.
O que leva uma adolescente a trocar o convívio familiar pelo gatilho de uma arma de fogo? Essa é a pergunta que ecoa na sociedade!
Estamos diante de uma patologia social que vai além da criminalidade comum. Quando a violência transborda para dentro do lar, as proteções institucionais falham. Onde deveria haver o respeito à ancestralidade e o cuidado com os mais velhos, surgiu o cálculo frio. A violência intrafamiliar no Brasil tem apresentado facetas cada vez mais precoces e letais, revelando uma juventude que, por vezes, parece desconectada do valor da vida e imersa em conflitos que terminam em tragédia antes mesmo de serem mediadores.
Como a avó, sobrevivente física, conseguirá habitar novamente o silêncio de uma casa onde a neta se tornou a algoz? Como a comunidade do Bom Futuro processará a ideia de que o perigo não vem apenas da “rua”, mas pode dormir no quarto ao lado?
Este editorial não busca condenar antecipadamente, pois o devido processo legal é sagrado. No entanto, é impossível não refletir sobre a falência dos nossos laços mais primordiais. O caso de José Lucas, não é apenas uma estatística de homicídio na zona rural de Ariquemes; é um espelho quebrado que reflete uma sociedade onde o diálogo foi substituído pelo projétil e o afeto pelo desprezo absoluto.
Resta-nos a esperança de que a justiça seja célere e que, para além da punição, esse episódio sirva como um alerta amargo sobre a necessidade urgente de olharmos para o que está acontecendo dentro de nossas quatro paredes. A paz que tanto pedimos nas ruas começa, invariavelmente, na mesa de jantar.



