Rua dos Andradas, quase esquina com Rio Branco, centro de Santa Maria, Rio Grande do Sul, 10h58 de sexta-feira (19). Marcos Borba, 41 anos, voluntário da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), abre os dois cadeados potentes e empurra para dentro a porta de ferro preta do único ponto de entrada e saída da boate Kiss.
O sol forte daquela manhã entra primeiro e ilumina a parede lilás decorada com espelhos redondos – suja de fuligem – do hall de entrada. Oito anos, nove meses e 23 dias após a madrugada de 27 de janeiro de 2013, a reportagem do R7 percorreu, por meia hora, pelo que restou no interior do prédio da Kiss.
Caixa da boate nove anos depois do incêndio que matou 242 pessoas
GABRIEL HAESBAERT
No incêndio da boate, 242 pessoas morreram e 680 ficaram feridas. Tudo começou durante um show da banda de ritmos gaúchos Gurizada Fandangueira, extinta após a tragédia. O gaiteiro (sanfoneiro) da banda, Danilo Jaques, foi um dos mortos.
A tragédia da boate Kiss foi a maior do país nos últimos 50 anos, a segunda maior em número de mortos por fogo e fumaça, a quinta considerando todas as causas e a terceira do mundo em casas noturnas.
Por dentro, o prédio está como fogo, fuligem e fumaça o deixaram. A Justiça determinou que a construção não fosse recuperada ou demolida antes do resultado do julgamento do caso, que tem início marcado para o próximo dia 1º de dezembro, em Porto Alegre, capital do estado.
A ideia para depois do veredito dos jurados é construir no espaço um monumento aos mortos e feridos na tragédia. A prefeitura de Santa Maria adquiriu o imóvel e o direcionou à AVTSM com essa intenção.
“O proprietário, que alugava para os donos da Kiss, queria R$ 4,5 milhões no início, mas, na negociação, conseguimos baixar para R$ 1,2 milhão em dez vezes”, revela ao R7 o prefeito da cidade, Jorge Pozzobom (PSDB).
Quatro réus serão julgados no caso: o DJ Luciano Augusto Bonilha Leão, que comprou o sinalizador usado no incêndio, Marcelo Jesus dos Santos, vocalista da banda, que acendeu o artefato durante o show, e os dois proprietários da Kiss, os sócios Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, e Mauro Londero Hoffmann.
A maior parte dos universitários mortos foi vítima do gás cianeto liberado na queima da espuma que revestia o teto, feita de material impróprio para essa finalidade. O cianeto provoca asfixia e paralisia respiratória.
O ar pesa no interior da Kiss pela persistência, ainda que leve, do cheiro de fuligem e fumaça, e isso está longe de ser mera figura de linguagem. O desconforto aumenta quando essa percepção do olfato se mistura ao registro visual das ruínas e, sobretudo, ao pensamento e às vibrações de estar em um lugar até pequeno em tamanho para ter concentrado tanta morte e tantos ferimentos em tão pouco tempo. A escuridão lá dentro não ilumina – mas o silêncio, aliado a tudo isso, grita.
Confira como está a boate Kiss após quase nove anos da tragédia, com mais informações importantes nas legendas, na galeria abaixo, no competente trabalho do repórter fotográfico Gabriel Haesbaert.
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Na metade direita da boate, próximo ao bar, pedaços de revestimento e espuma ainda pendem do teto. São de material melhor do que o da espuma colocada no teto do palco, onde começou o incêndio. O espaço foi totalmente destruído pelo fogo vindo do sinalizador manipulado pelo vocalista da banda Gurizada Fandangueira, que fazia o show da noite e hoje está extinta
Fonte: R7



