A renda média dos mais pobres voltou a cair no 1º trimestre, elevando para 25,2% a fatia da população nas regiões metropolitanas do país que vivem em lares cujo rendimento médio per capita é de no máximo 1/4 do salário mínimo, ou seja, R$ 303 por pessoa.
Em números absolutos, subiu para 21,1 milhões o total de pessoas em situação de vulnerabilidade social nas metrópoles, com rendimentos muito baixos. No final de 2021, o percentual tinha recuado para 23,6%, depois de ter atingido 29,7% em 2020, na fase mais aguda da pandemia.
Os dados estão na oitava edição do boletim Desigualdade nas Metrópoles, antecipado com exclusividade ao g1. O estudo foi produzido por pesquisadores da PUC-RS, do Observatório das Metrópoles e da Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL), a partir dos dados da PNAD Contínua trimestral do IBGE.
Vida no aperto
R$ 140 por mês – menos de 1/8 do salário mínimo. É com isso que vive Ana Paula.
“Vivemos assim: hoje a gente come carne na mistura, amanhã come arroz e feijão, depois de amanhã a gente come sem o feijão. É assim que vamos levando”, contou Ana Paula Jorge, 43 anos, que vive junto das três filhas na comunidade Santo Amaro, no Catete, Zona Sul do Rio.
Ana Paula vinha mantendo o lar com pouco mais de um salário mínimo que recebia pelo trabalho com carteira assinada em um restaurante na Lagoa, bairro nobre da Zona Sul carioca. Demitida em março, mesmo mês em que a filha mais velha, de 23 anos, também perdeu o emprego, ela passou a contar apenas com R$ 140 que a avó paterna da filha do meio, de 14 anos, paga a título de pensão alimentícia.
“O pai da caçula dá alguma coisa, de vez em quando. Eu vinha fazendo empadão para vender, mas as coisas ficaram tão caras que eu não estou conseguindo comprar mercadoria para fazer mais. O aluguel, de R$ 500, eu não estou pagando e a minha sorte é que na comunidade não pagamos água e luz”, enfatizou Ana Paula.
Questionada sobre o futuro, ela diz não se desesperar, embora não saiba o que fazer para mudar a situação.
“Já espalhei currículo, já fiz entrevistas e até em casa de família está difícil conseguir alguma coisa como diarista. Meu nome está sujo e eu não tenho como fazer nada para mudar isso”, lamentou.
Renda do trabalho tem queda
A pesquisa revela também que, entre os 40% mais pobres, a renda média domiciliar per capita proveniente do trabalho voltou a cair após 5 trimestres de recuperação, ficando em R$ 240,79, contra R$ 245,55 no final de 2021, se mantendo abaixo do valor pré-pandemia (R$ 286).
A renda média foi calculada a partir da soma de todos os rendimentos provenientes exclusivamente do trabalho, incluindo o setor informal, dividida pelo número de moradores por domicílio nas regiões metropolitanas, com preços deflacionados até o 1º trimestre pelo IPCA.
Essa é a realidade na família de Nayara Araújo, de 35 anos, mãe de três filhos menores, que também vive na comunidade do Santo Amaro, no Rio. Ela foi demitida do emprego de recepcionista no fim do ano passado e a única fonte de renda da família passou a ser o salário do marido, que trabalha como garçom.
A maior mudança no padrão de vida da família se deu na alimentação. As carnes vêm sendo substituídas por salsicha, linguiça, ovo e, com menor frequência, frango. Os passeios com os filhos perderam a parte final, na lanchonete.
As crianças é que sentem mais o impacto. Antes a gente sempre compra biscoitos recheados e outras guloseimas. Hoje, a gente compra só de vez em quando. O que eu mais sinto falta mesmo é de carne. Eu gosto de carne boa, e não dá mais para comprar. A gente passou a comer frango, mas eu nunca gostei de frango”, reclamou.
Sem rendimento próprio para ajudar a compor a renda familiar, Nayara disse ter sido inevitável contrair dívida, algo que ela e o marido evitavam a todo custo. “Faz uns quatro meses que precisei parcelar a fatura do cartão e hoje a dívida já está em torno de R$ 1,2 mil, ou seja, um salário mínimo, que é justamente o que meu marido ganha”, lamentou.
Impactos da inflação
Segundo o estudo, o aumento da proporção de lares vivendo com até ¼ do salário-mínimo por pessoa explicita o drama social das famílias mais pobres em meio aos impactos da inflação nas alturas e da recuperação ainda frágil da economia, evidenciado a importância de políticas sociais e de programas de complemento de renda.
“O rendimento do trabalho corresponde a 70% da renda domiciliar em geral. Então, esse resultado expressa uma situação de vulnerabilidade social e que pode vir a expressar uma situação de pobreza”, afirma Marcelo Ribeiro, coordenador da pesquisa e professor do IPPUR/UFRJ, acrescentando que as classificações de linha de pobreza costumam incluir também os rendimentos provenientes de auxílios e benefícios do INSS.
No Nordeste, percentual chega a quase 40%
Em 12 das 22 regiões metropolitanas do país, o percentual de indivíduos vivendo em lares com rendimento per capita de no máximo R$ 303 ficou acima de 30%. As maiores proporções foram registrados nas regiões de João Pessoa (39,6%), Recife (39,4%) e de Maceió (37,3%), e as menores nas regiões de Goiânia (17,8%), Curitiba (16,8%) e Florianópolis (16,1%).
Por Darlan Alvarenga e Daniel SIlveira, G1



